Vivendo o foda-se
Eu tinha 14 ou 15 anos. Acabara de mudar para uma escola publica para cursar o primeiro colegial. E.E.S.G. Padre Manuel de Paiva, no cruzamento da Av. Bandeirantes com a Ibirapuera, na frente do McDonalds.
Pra ter uma ideia do lugar eh facil. Voce entra por um portao de um metro e meio de largura atravessando um muro de dois metros e meio com uma cerca de arame de mais um metro com arame farpado em cima. Desce uns 6 ou 7 degraus e entao esta dentro do patio. Nao ha salas de aula no terreo. As salas ficam no primeiro e segundo andares e nao cobrem o andar inteiro, apenas a parte externa do colegio, deixando toda a parte do patio livre com um imenso vao que vai ate o teto do colegio, que ocupa praticamente o quarteirao inteiro. Para subir usam-se as escadas que ficam mais a frente, no meio do patio. Do outro lado fica a quadra, que de comprido eh de futebol de salao, e de lado eh de basquete. O colegio eh um presidio. Na hora do intervalo tem ate banho de sol, quando o povo se amontoa no restinho de luz que bate entre os muros.
Vindo de escola particular a vida inteira e super protegido como sempre fui pela minha mae eu era o cara mais babaca que alguem poderia encontrar disponivel aquele ano. Minha preocupacao comigo mesmo era grande, assim como o que eu vestia, falava ou pensava. Pior ainda era minha preocupacao com o que falavam de mim.
De alguma forma eu fiz amizade rapidamente. Alem de ter a sorte de ter comigo um amigo antigo, daqueles de verdade, que mantenho ate hoje. Mas algo comecou a mudar. Em pouco tempo comecei a tocar violao. Em menos tempo ainda comecei a andar de skate.
Ah... o skate...
O skate foi responsavel por metade da minha mudanca da crianca que eu era na oitava serie para o homem que sou hoje. O skate trocou, substituiu, aniquilou a minha filosofia de vida anterior por uma novinha, muito superior. Naquele ano de 1993 eu deixei de ser um e comecei a ser outro, que sou ate hoje.
Skate eh considerado um esporte "radical"... Whatever that means... Logo de cara eu aprendi que doia muito andar de skate. Se voce quiser andar direito vai apanhar muito. Vai tomar muita canelada, batida no joelho, vai perder bastante sangue, sofrer bastante fisicamente. E vai adorar. De repente percebi que a dor eh valida diante de uma recompensa maior que eu buscava com muita vontade. Aprendi a buscar minhas metas com mais claridade nos meus pensamentos. A obstinar quando necessario e a deixar quieto quando estou de saco cheio.
Ja durante a terapia do skate eu comecei a mudar enquanto pessoa. Comecei a tocar o foda-se para todo o resto. O cabelo cresceu. Foi ate verde. Furei a orelha uma, duas, tres, quatro vezes (e vou furar de novo), parei de tomar banho (mas ja voltei meninas... calma... ja passou...), parei de me preocupar. Parei de estudar (nao parei o colegial). Dormi na rua. Ia pra balada sem dinheiro algum de onibus, passava por baixo da catraca. Me diverti muito.
Duas grandes figuras marcaram esse processo: Tiago e Jade.
Lembrando da uma puta saudade. O Tiago eh meu amigo desde essa epoca mas infelizmente nao nos vemos mais do que uma vez por ano. Ele ta namorando serio, trabalhando, puxando ferro, tocando violao. Eu trabalho 12 horas por dia, casei, descasei, tive filho, enfim... a vida nos separou. Estou buscando-o novamente.
A Jade eh uma pessoa incrivel. Eh uma das pessoas que conheco que mais experimentou na vida. Experimentou de tudo, gostou de tudo, desgotou de algumas coisas. Me ensinou muito mesmo sendo apenas dois anos mais velha. Filha de musicos, semi-hippie, sexualmente liberada, inteligentissima, interessantissima. Nunca ficamos - nossa amizade era maior. Morou com a mae e o padrasto e quando a mae separou do padrasto ficou com o padrasto e com a nova mulher dele. Tem mais irmaos que dedos pelo que me lembro. Mulher incrivel. Casou uns anos atras e separou. Kuru o nome dele, mas nao tenho certeza. Tocava ou era amigo de uma banda chamada Barbapapas, que eu tive a chance de ouvir tocando No fun numa fita da Jade que era bem legal. A Jade eu reencontro quando a vida pede.
E esse lance de nao se preocupar e de viver pela felicidade, testando o mundo, sobrevive ate hoje. Me considero uma pessoa muito intensa. Vivo pelo tudo ou pelo nada. Adoro a montanha-russa. Mesmo que ela tenhas seus baixos a subida com espectativa da descida e a descida em si valem a pena. Nao me arrependo de nada que fiz porque foi tudo sempre muito bom. Nao odeio ninguem, amo a todos. Nao guardo magoas. Por que ia querer uma vida como um mar calmo? Quero as ondas! Quero o movimento. Quero um grande amor com uma grande perda. Quero excesso visual e auditivo. Quero pirar de pensar e dai pensar mais um pouco. Quero a borda do precipicio e quero o passo seguinte so pra ver como eh a queda.
Considero-me uma pessoa marcada profundamente pela vida e considero minha vida muito legal. Eu fui o Nerd da sexta serie, o louco do colegial e agora sou o incomum do suposto ambiente adulto. Tento participar da parte da sociedade que me quer ouvir e dai falo mesmo. E falo tudo. E pergunto tudo. Se o assunto me interessa nao tenho medo de expor todas as minhas duvidas e ignorancias. So assim elas irao embora.
Viver sem se preocupar com a opiniao alheia eh uma coisa muito interessante. Me permite coisas como:
-Dizer o que penso quando quero
-Fazer sexo da maneira como acho melhor
-Andar de moto parecendo motoboy
-Subir no elevador com um monte de advogado (ou estagiario) almofadinha me medindo de cima a baixo sem me preocupar
-Fazer novos piercings quando sentir vontade
-Manter amigos que realmente gostam de mim porque os que nao gostam nao escondem e saem fora.
-Discutir abertamente contrariando tudo e todos, como muitas vezes fiz com o Marcio por exemplo, sem perder a amizade.
-Comentar o que bem entendo em todos os blogs que eu bem entender colocanco a minha identidade original e o endereco desse blog para poderem vir aqui discutir comigo.
-Nao estressar.
-Ir a balada GLS sem ser gay e sem me sentir ameacado.
-Falar sobre preconceito com gente que sofre por ele.
-Falar de coisas tristes que ninguem quer falar.
-Discutir assuntos que precisa-se discutir e todos querem evitar.
-Falar na cara dos meus amigos de verdade quando eles precisam ouvir.
-Ouvir todo o tipo de musica sem me preocupar em ser rotulado.
-Nao me preocupar com nenhum rotulo que ninguem me da, ja que afinal, nenhum cabe em mim mesmo.
-Nao ser comparavel a ninguem (se vc comparou eh pq nao me conhece direito).
-Ser realmente feliz.
Vivendo assim, quando vejo uma escada de 8 degraus na vida, nao tenho duvida, corro com meu skate e pulo. Posso me espatifar feio. Mas se nao me espatifar o pulo vai ser lindo. E como eu pratico a bastante tempo a chance de eu me dar mal eh cada vez menor.
E apesar dos baixos, adoro os altos. E tenho a sorte de viver neles 90% do tempo.

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