Som e Furia
Assistindo ontem a GNT passou um documentario nomeado "Som e Furia". Nome interessante... Caiu muito bem, vejam porque:
Debatia-se a surdez e a cultura de pessoas surdas como, por exemplo, a linguagem dos sinais.
Duas familias ficaram em evidencia. Em uma delas a mae, o pai e a filha mais velha eram ouvintes enquanto que os avos maternos eram surdos. Nessa familia havia nascido uma crianca, tambem surda, e ela tinha agora onze meses. Na outra familia todos eram surdos, dos avos ate os filhos, passando por tios, tias, primos, etc, com excessao dos avos paternos.
A primeira familia estava cogitando utilizar-se de um implante coclear para devolver a audicao do recem nascido.
Eu nao sabia que isso ja era possivel, mas eh. Em uma quantidade razoavel de casos se o implante for realizado a tempo (de preferencia com a pessoa ainda crianca) ele consegue devolver a audicao. Em alguns casos fica perfeito, em outros a pessoa fala e ouve com alguma dificuldade. O implante eh feito bem atras de uma das orelhas e um plugzinho fica entao disponivel (tambem atras da orelha), onde a pessoa pluga um fio que segue ate um aparelho que fica preso geralmente a cintura, que envia os sons a pessoa. Sem esse aparelho a pessoa continua surda.
Como a crianca tinha apenas onze meses e se enquadrava no tipo de surdez que o implante resolvia as chances dela nao ser mais surda eram grandes.
Na outra familia a filha mais nova, ja com cinco anos, passou a querer o implante. Por morarem em uma comunidade de ouvintes ela nao se relacionava bem na escola e com os amiguinhos. Se sentia excluida. Apos os exames os medicos concluiram tambem que ela poderia recuperar quase toda a audicao com o implante.
Tudo bem ate ai, historias lindas. Viva a tecnologia!!
Nao eh bem por ai, no entanto.
Entre essas duas criancas e seu implante existiam pessoas. E ideias. Ideias que para mim soaram muito bizarras.
Os avos e toda a comunidade surda amiga dos avos maternos da primeira filha passaram a condenar a mae por buscar o implante. Diziam que ela nao aceitava a surdez, que achava que eles (os avos maternos, seus pais) eram inferiores por serem surdos. Que devia aceitar o filho como veio. Se veio surdo, que seja surdo. Que isso nao o impedia de viver normalmente. A mae da crianca surda enfatizava que nao achava que ninguem era melhor que ninguem. Dizia que era filha de pais surdos (ela falava com eles por sinais) e entendia muito bem o problema da surdez, mas que a surdez limitava e se ela pudesse deixar o filho mais capaz o faria.
Na segunda familia fez-se muita pesquisa. Foram a escolas de criancas implantadas conferir como essas criancas se desenvolviam. Para minha surpresa as criancas implantadas, tambem com cinco anos mais ou menos, falavam perfeitamente. Nao fosse o aparelho atras da orelha, muito discreto por sinal, ninguem diria que elas eram surdas. Nessa escola encorajava-se que falassem com a boca e nao por sinais, para treinar a diccao e a audicao. Foram tambem visitar uma outra familia, inteira ouvinte, que havia tido uma filha, tambem com cinco anos, implantada. No caso especifico dessa menina, havia um pouco de dificuldade na fala, mas ela ouvia e se fazia entender bem.
A mae dessa segunda familia decidiu entao implantar a si mesma e ver como se saia, antes de tomar tal passo com a filha. Infelizmente implantes realizados ja em um estagio tao adulto acabam nao ficando bons. O adulto passa a ouvir mas nao compreende os sons como palavras. O cerebro nao aprende mais. Isso frustrou muito essa mae, que desistiu do implante para si mesma. A partir dai seu comportamento mudou radicalmente. Ela passou a nao querer o implante tambem para a filha. Dizia, juntamente com o marido, que isso mudaria a identidade da sua filha. Diziam que ela esqueceria da cultura surda e que nao se comunicaria mais com sua familia ou com outros surdos usando sinais. Diziam que as escolas que pediam aos alunos implantados para nao usar sinais (para auxiliar no desenvolvimento da fala e da audicao) eram preconceituosas. Decidiram entao que ela nao faria o implante. A filha, quando comunicada, perguntou porque. A mae explicou que nao era necessario, que ela ja era perfeita como era e nao precisaria daquilo. Dizia que o pai era surdo e trabalhava em Wall Street, tomando decisoes importantissimas e era surdo. E que isso nao limitava ninguem. A filha assumiu a decisao dos pais. Algum tempo depois, quando perguntada, dizia que nao queria o implante, que havia sido decisao sua. Mas junto a mae dizia que quem havia decidido era ela. No fim a familia mudou-se para Maryland, um estado nos Estados Unidos onde existe uma grande comunidade surda.
Historia contada. Agora vem meu momento inconformado:
Entendo que os surdos tenham uma cultura propria. Entendo que queiram preserva-la e tem esse direito. O que nao entendo eh impor uma limitacao fisica a alguem (principamente um filho ou neto) so para que ele seja como voce. Alegar que a comunicacao com a comunidade surda ou com a familia ficaria prejudicada eh nonsense. Na primeira familia da historia a mae era ouvinte, filha de pais surdos e se comunicava perfeitamente com eles assim como com qualquer outro surdo. Ela vivia nos dois "mundos" (como eles diziam as vezes), no dos ouvintes e no dos surdos.
Surdez eh um limitacao. Assim como cegueira ou a falta de uma perna. O mercado de trabalho maltrata, as criancas sao crueis, muitos nao respeitam. Isso eh um fato. Porque insistir na limitacao entao? Porque cogitar nao devolver a visao a um cego, a perna a um aleijado ou a audicao a um surdo? Nao entendo.
Os casos apresentados me deixaram mais revoltados, especificamente.
O fato de a segunda mae ter rejeitado o implante quando ela tambem nao podia te-lo colocou-a abaixo de animais para mim. Se ela nao pode, entao a filha dela tambem nao pode. Ela estava muito empolgada antes, mas nao foi capaz de transferir essa empolgacao para a felicidade da sua filha.
O pai da segunda familia defendia suas ideias como um religioso fervoroso. Parecia um muculmano em plena Jihad. Sua mae lhe dizia que havia sido muito dificil cria-lo, que ele repensasse. Seu pai lhe disse o mesmo em outra ocasiao, mas ele nao quis saber. Ser ignorante e hipocrita.
Um momento muito emocionante foi apos a cirurgia do bebe de onze meses. Antes, batiam-se tambores ao seu lado sem que ele ouvisse. Quando ele foi levado ao medico o aparelho foi ligado e os pais chamaram-no e ele olhou. Foi um momento de lagrimas maravilhoso. Nada nesse mundo pagaria a felicidade daquela familia naquele momento.
Na minha opiniao as decisoes contrarias ao tal implante, quando aplicavel, tratam-se de decisoes tomadas com um egoismo impensado e irracional. Ainda nao digeri completamente essa historia; ela esta entalada na minha garganta.
Cada dia gosto menos do mundo que moro.
Debatia-se a surdez e a cultura de pessoas surdas como, por exemplo, a linguagem dos sinais.
Duas familias ficaram em evidencia. Em uma delas a mae, o pai e a filha mais velha eram ouvintes enquanto que os avos maternos eram surdos. Nessa familia havia nascido uma crianca, tambem surda, e ela tinha agora onze meses. Na outra familia todos eram surdos, dos avos ate os filhos, passando por tios, tias, primos, etc, com excessao dos avos paternos.
A primeira familia estava cogitando utilizar-se de um implante coclear para devolver a audicao do recem nascido.
Eu nao sabia que isso ja era possivel, mas eh. Em uma quantidade razoavel de casos se o implante for realizado a tempo (de preferencia com a pessoa ainda crianca) ele consegue devolver a audicao. Em alguns casos fica perfeito, em outros a pessoa fala e ouve com alguma dificuldade. O implante eh feito bem atras de uma das orelhas e um plugzinho fica entao disponivel (tambem atras da orelha), onde a pessoa pluga um fio que segue ate um aparelho que fica preso geralmente a cintura, que envia os sons a pessoa. Sem esse aparelho a pessoa continua surda.
Como a crianca tinha apenas onze meses e se enquadrava no tipo de surdez que o implante resolvia as chances dela nao ser mais surda eram grandes.
Na outra familia a filha mais nova, ja com cinco anos, passou a querer o implante. Por morarem em uma comunidade de ouvintes ela nao se relacionava bem na escola e com os amiguinhos. Se sentia excluida. Apos os exames os medicos concluiram tambem que ela poderia recuperar quase toda a audicao com o implante.
Tudo bem ate ai, historias lindas. Viva a tecnologia!!
Nao eh bem por ai, no entanto.
Entre essas duas criancas e seu implante existiam pessoas. E ideias. Ideias que para mim soaram muito bizarras.
Os avos e toda a comunidade surda amiga dos avos maternos da primeira filha passaram a condenar a mae por buscar o implante. Diziam que ela nao aceitava a surdez, que achava que eles (os avos maternos, seus pais) eram inferiores por serem surdos. Que devia aceitar o filho como veio. Se veio surdo, que seja surdo. Que isso nao o impedia de viver normalmente. A mae da crianca surda enfatizava que nao achava que ninguem era melhor que ninguem. Dizia que era filha de pais surdos (ela falava com eles por sinais) e entendia muito bem o problema da surdez, mas que a surdez limitava e se ela pudesse deixar o filho mais capaz o faria.
Na segunda familia fez-se muita pesquisa. Foram a escolas de criancas implantadas conferir como essas criancas se desenvolviam. Para minha surpresa as criancas implantadas, tambem com cinco anos mais ou menos, falavam perfeitamente. Nao fosse o aparelho atras da orelha, muito discreto por sinal, ninguem diria que elas eram surdas. Nessa escola encorajava-se que falassem com a boca e nao por sinais, para treinar a diccao e a audicao. Foram tambem visitar uma outra familia, inteira ouvinte, que havia tido uma filha, tambem com cinco anos, implantada. No caso especifico dessa menina, havia um pouco de dificuldade na fala, mas ela ouvia e se fazia entender bem.
A mae dessa segunda familia decidiu entao implantar a si mesma e ver como se saia, antes de tomar tal passo com a filha. Infelizmente implantes realizados ja em um estagio tao adulto acabam nao ficando bons. O adulto passa a ouvir mas nao compreende os sons como palavras. O cerebro nao aprende mais. Isso frustrou muito essa mae, que desistiu do implante para si mesma. A partir dai seu comportamento mudou radicalmente. Ela passou a nao querer o implante tambem para a filha. Dizia, juntamente com o marido, que isso mudaria a identidade da sua filha. Diziam que ela esqueceria da cultura surda e que nao se comunicaria mais com sua familia ou com outros surdos usando sinais. Diziam que as escolas que pediam aos alunos implantados para nao usar sinais (para auxiliar no desenvolvimento da fala e da audicao) eram preconceituosas. Decidiram entao que ela nao faria o implante. A filha, quando comunicada, perguntou porque. A mae explicou que nao era necessario, que ela ja era perfeita como era e nao precisaria daquilo. Dizia que o pai era surdo e trabalhava em Wall Street, tomando decisoes importantissimas e era surdo. E que isso nao limitava ninguem. A filha assumiu a decisao dos pais. Algum tempo depois, quando perguntada, dizia que nao queria o implante, que havia sido decisao sua. Mas junto a mae dizia que quem havia decidido era ela. No fim a familia mudou-se para Maryland, um estado nos Estados Unidos onde existe uma grande comunidade surda.
* * *
Historia contada. Agora vem meu momento inconformado:
Entendo que os surdos tenham uma cultura propria. Entendo que queiram preserva-la e tem esse direito. O que nao entendo eh impor uma limitacao fisica a alguem (principamente um filho ou neto) so para que ele seja como voce. Alegar que a comunicacao com a comunidade surda ou com a familia ficaria prejudicada eh nonsense. Na primeira familia da historia a mae era ouvinte, filha de pais surdos e se comunicava perfeitamente com eles assim como com qualquer outro surdo. Ela vivia nos dois "mundos" (como eles diziam as vezes), no dos ouvintes e no dos surdos.
Surdez eh um limitacao. Assim como cegueira ou a falta de uma perna. O mercado de trabalho maltrata, as criancas sao crueis, muitos nao respeitam. Isso eh um fato. Porque insistir na limitacao entao? Porque cogitar nao devolver a visao a um cego, a perna a um aleijado ou a audicao a um surdo? Nao entendo.
Os casos apresentados me deixaram mais revoltados, especificamente.
O fato de a segunda mae ter rejeitado o implante quando ela tambem nao podia te-lo colocou-a abaixo de animais para mim. Se ela nao pode, entao a filha dela tambem nao pode. Ela estava muito empolgada antes, mas nao foi capaz de transferir essa empolgacao para a felicidade da sua filha.
O pai da segunda familia defendia suas ideias como um religioso fervoroso. Parecia um muculmano em plena Jihad. Sua mae lhe dizia que havia sido muito dificil cria-lo, que ele repensasse. Seu pai lhe disse o mesmo em outra ocasiao, mas ele nao quis saber. Ser ignorante e hipocrita.
Um momento muito emocionante foi apos a cirurgia do bebe de onze meses. Antes, batiam-se tambores ao seu lado sem que ele ouvisse. Quando ele foi levado ao medico o aparelho foi ligado e os pais chamaram-no e ele olhou. Foi um momento de lagrimas maravilhoso. Nada nesse mundo pagaria a felicidade daquela familia naquele momento.
Na minha opiniao as decisoes contrarias ao tal implante, quando aplicavel, tratam-se de decisoes tomadas com um egoismo impensado e irracional. Ainda nao digeri completamente essa historia; ela esta entalada na minha garganta.
Cada dia gosto menos do mundo que moro.

1 Comentários:
Olá, Giggio.
Estava procurando fundamentação teórica para um projeto de pesquisa que eu irei apresentar na minha Iniciação Científica e acabei esbarrando no seu interessante blog. Eu não assisti ao programa sobre surdez e cultura surda que passou na GNT em 2003 (nossa, isso foi há muito tempo), mas sua narração do programa serviu perfeitamente aos meus olhos. Mais interessante que o seu blog, foi a sua opinião a respeito das decisões dos pais retratados sobre o implante coclear. Eu pesquiso sobre Educação de Surdos e entendo os motivos que levaram os pais dessa criança a rejeitar o implante. Eu sugiro que você procure ler algo sobre Estudos Surdos, que é um campo dos Estudos Culturais que discute a surdez não com um problema patológico, mas como um plano que possui problemas espistemológicos. Por mais que possa parecer injusto, para com a filha, impedir uma possível audição, esses pais, assim como a comunidade surda em geral, há anos defendem serem reconhecidos como sujeitos diferentes e não deficientes. Eles não querem ser vistos como sujeitos com corpos doentes.
Enfim, eu adoraria conversar muito mais sobre isso com você. Espero que você leia esse comentário super atrasado.
Um abraço.
Pedro Witchs
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