quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Caminhando com a idéia

A coluna (de Diogo Mainardi) recebeu milhares de cartinhas dos leitores. (...) De cada dez cartinhas que os leitores me mandam, nove são negativas. Claro que essa gigantesca impopularidade me incomoda. Não faço o menor esforço para conquistá-la. Em muitas das cartinhas, os leitores me ofendem com pesados epítetos. Na maioria dos casos, além de me ofender, o s leitores maléficos sugerem que a revista simplesmente me demita, como um monte de Salomés pedindo minha cabeça. Nada mais vil e mesquinho que pedir a cabeça de alguém, mas é assim que se manifesta a discordância no Brasil. Imagino que seja a herança de séculos e séculos de regimes autoritários, da escravidão à ditadura militar. Não cultivamos o hábito da contraposição, mas o da pura e simples supressão.

Diogo Mainardi (de novo) em seu livro A tapas e pontapés

Acho que essa afirmação não teria como ser mais verdadeira. O brasileiro é realmente mesquinho no que se refere a opiniões contrárias as suas. Prefere cortar a cabeça para calar a boca que despeja idéias contrarias as suas do que ouvi-las e crescer com elas. Destina-se a ser eternamente ignorante.
Essa moeda tem um outro lado então é interessante colocar que os brasileiros, em sua maioria, não tem muitas idéias. E dessa forma não seria possível que se irritassem com as idéias dos outros. O que acontece é que o brasileiro tem uma outra característica fortíssima: a carência. O brasileiro adora ser arrebanhado, ter alguém mais forte para se apoiar, e sobretudo, culpar caso a idéia dê errado. Dessa forma, o brasileiro também fica irritado quando alguém vai contra uma idéia que não é sua, mas que ele simpatiza.
Se o dono de uma idéia for de grande nome a mudança de idéias é praticamente instantânea e impensada. A falta de auto-confiança nas próprias crenças chega a ser patética e demonstra claramente que a idéia substituída provavelmente foi adotada de maneira semelhante a idéia nova. Fácil vem, fácil vai. Quem nunca viu um grupo coeso e firme em determinada idéia ser facilmente balançado por um pensador de renome? Tais pensadores podem propor qualquer idéia que ela é instantaneamente aceita, ainda que absurda. Esse é um grande perigo.
Estar sempre disposto a colocar suas próprias idéias em xeque é sem dúvida uma característica jovem, presente em pessoas de todas as idades. Mas colocar as idéias em xeque não significa trocá-las por qualquer outra que apareça (ou não trocar nunca), mas analisar os novos pensamentos que chegam e adotá-los conforme o critério da razão própria (e a de mais ninguém).
Um dos meus maiores sonhos é viver num mundo onde as pessoas pensem por si próprias. Mas vou deixá-lo para outra vida...

1 Comentários:

Blogger Gera disse...

Dizer que brasileiro é assim ou assado, é generalizar. E da forma que foi colocado é subestimar um povo e simplesmente esquecer o que ele tem de bom.

O brasileiro pensa sim. E não é só o brasileiro. O que acontece é que existem muitas pessoas que por questões culturais simplesmente não são motivadas a pensar, mas se fossem estimuladas... Portanto, acho que não tem sentido dizer que as pessoas não pensam. Melhor do que isso é estimulá-las a pensar. Muita gente adoraria isso se tivessem a oportunidade de refletir.

Um outro lado do brasileiro: ele sente. Seja do jeito que for tem uma religiosidade aflorada. Acho que pode até faltar razão, mas, na média, sobra sensibilidade. E isso é bom! Em muitos lugares isso não acontece...

Acredito que caminhamos para um equilíbrio entre razão e sensibilidade. É só não esquecer nem uma, nem outra...

[]s!

5:48 PM  

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