sábado, fevereiro 11, 2006

Felicidade não é posição

"A felicidade não é desse mundo", dizia Jesus.
A "sabedoria convencional" (utilizando o termo de Levitt) parece confirmar essa frase. Quando pergunto às pessoas se são felizes, em geral a resposta é "Não" ou "De vez em quando". Estão todos presos a uma idéia de felicidade ligada a uma sensação de prazer constante e à ausência total de problemas. Parece-me que para ser feliz é preciso viver em um mundo onde não exista pobreza, onde todos são bons e éticos, onde não existam doenças e todos respeitem uns aos outros.
Não vou entrar no mérito de que nenhum de nós é capaz de ser ético, respeitoso e livre de problemas o tempo todo. Acho que isso não precisa de debates ou provas.
Minha idéia de felicidade, no entanto, difere da exposta acima. Não acredito que felicidade seja estar livre de problemas enquanto tudo à sua volta da certo. Para mim felicidade é algo muito diferente disso. Se felicidade fosse isso, como poderíamos ser felizes, não só nesse mundo, mas em qualquer outro? As pessoas esperam a morte para encontrar a felicidade em outro mundo (ou ao menos a paz no nada e na não-existência), mas será mesmo que a felicidade não é deste mundo?
Afinal, como podemos ser felizes se há tanta miséria à nossa volta? Como podemos ser felizes se em todo lugar que vamos existem pessoas más, anti-éticas, querendo puxar nosso tapete, fechar o nosso carro, subornar e serem subornadas? Como a felicidade pode ser de um mundo desses? Como dormir sabendo que o meu vizinho passa frio e fome enquanto eu estou aquecido e de barriga cheia?
Sugiro a expansão da idéia. Digamos que realmente, em outro mundo (seja no céu católico, no paraíso muçulmano com suas 70 virgens, no outro plano da existência espírita, ou no outro mundo qualquer de sua preferência), exista felicidade. Ainda assim, neste planeta, neste lugar onde vivemos hoje, nossos amigos, familiares e descendentes, vizinhos, conterrâneos e assim por diante, continuarão sofrendo a miséria humana. Seremos felizes então? Não parece muito com a situação colocada antes, sobre o meu vizinho, com fome e com frio?
A realidade é que sempre existirão pessoas sofrendo, e se colocarmos nossa felicidade na resolução dessa situação impossível de resolver, nunca seremos felizes e realmente, para nós que acreditamos nisso, a felicidade não será desse mundo.
E como agir? Seria o melhor caminho ficar insensível ao sofrimento próprio e ao alheio? Quantos de nós realmente conseguiríamos fazer isso?
A felicidade então deve residir em algum conhecimento superior. Talvez depois de algum aprendizado, de uma evolução, talvez depois que sejamos maiores ou melhores, sejamos felizes. Mas qual seria o ponto ideal? A partir de quando uma pessoa pode se considerar feliz? Ela deverá ser perfeita? Ou quase perfeita já estaria bom? Quem determina isso? E ainda assim, ainda que exista esse momento, essa posição, este estado de espírito determinado em que possamos dizer "estou evoluído", não haveria ainda muito à aprender já que diante do conhecimento infinito todo aprendizado é pequeno?
Por esses motivos acredito que felicidade não é posição, é direção. Não acho que a felicidade reside em um certo estágio de evolução/conhecimento/sabedoria/inteligência/moral. Não acho que reside também na resolução de todos os nossos problemas ou dos outros. Lembro-me muito bem que Jesus, Ghandi, Maomé, todos os grandes influenciadores talvez ditos como felizes tinham problemas e conviviam em um mundo também cheio de problemas. E também não eram perfeitos, já que existem diversos relatos, sobre todos, sem exceção, de momentos de fraqueza.
Como ser feliz então? O que realmente importa é a direção. Não interessa se você tem problemas, se o mundo tem problemas, se você não é o mais inteligente, o mais sábio, ou qualquer que seja a qualidade. O que interessa é para onde você está indo. Já que a caminhada é eterna, o que mais interessa é a direção. Se a direção está errada você vai estar no chegar ao lugar errado e o lugar errado nunca é onde você quer estar. Sempre vai existir mais estrada, então que tal apreciar a paisagem e a viagem? Por que buscar sempre chegar em algum lugar?
Acreditem, este conhecimento é libertador. No entanto, só funciona quando somos capazes do auto-questionamento e de rever os nossos atos e idéias constantemente. De nada adianta se enganar e somente achar que está indo na direção certa. O que interessa mesmo é saber que a direção é certa. E isso é algo que a consciência, quando tem permissão para falar, vai sempre saber dizer.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Oi Gi !

Coincidencia...este final de semana estava lendo com o Alex no livro dos espiritos, que felicidade nao eh deste mundo. Alias, ele vai passar a frequentar a CEARA bendita. Vcs terao figurinhas pra trocar.

Minha bisavo dizia que felicidade eh aceitar o que somos e o que fazemos, eu troco o aceitar pelo compreender, se nao, vira conformismo.

Beijos

4:09 PM  

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