quarta-feira, dezembro 23, 2009

Entrego o dorso nu à perversidade do caos

Continuo pensando sobre as implicações da sorte sobre os caminhos da vida. Falei sobre isso recentemente quando disse que não acreditava em sorte ou destino, e o quanto me incomoda o fato de que pequenos fatos, muitas vezes sequer iniciados por mim, poderiam ter impactos violentos na minha vida.

Fui resgatado por diversas idéias, algumas filosóficas, outras matemáticas. Sim, a matemática é pura filosofia, e é mãe da lógica.

O que me faz voltar aqui para escrever para vocês é o fato de eu ter entrado em contato com a Teoria da Caos de forma mais aprofundada, devido a motivos profissionais ligados à gestão democrática, emergência, auto-similaridade, auto-organização, auto-gestão, entropia, sistemas complexos adaptativos, emergência, motivação, teoria dos jogos, entre outros assuntos.

A teoria do caos é estudada pela física, matemática e filosofia, e diz, entre outras coisas, e super simplificando, que pequenos eventos podem ter grandes impactos ao longo do tempo, atuando sobre um sistema caótico. A famosa frase “O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque” dá a idéia de como um pequeno fato pode ter influência absurda e é bastante emblemática para descrever a teoria do caos.

A grande pegadinha é que sistemas caóticos parecem ser aleatórios, mas na verdade são determinísticos, não aleatórios. Isso significa que são previsíveis, pelo menos conceitualmente. Se tivéssemos como observar todas as variáveis, conseguiríamos entender o que está acontecendo, e prever o que acontecerá em seguida. Só que normalmente nós não conseguimos controlar, prever ou entender todos as variáveis, e como elas interagem. Isso faz com que o sistema pareça aleatório e imprevisível, quando na verdade nos falta recursos para entendê-los profundamente. Sistemas caóticos são previsíveis só por um tempo muito curto, quando, do nada, ficam aparentemente imprevisíveis.

O clima é um exemplo de sistema caótico. Todo mundo sabe que uma previsão do tempo é válida só por alguns dias, e cada dia a mais acrescentado à previsão, maior a margem de erro. Há vezes em que a previsão do tempo erra a previsão do dia seguinte. O clima é aleatório? Claro que não, o clima é definido por diversas variáveis pré-definidas, nós é que não entendemos todas elas. Isso o torna, sob nossa perspectiva, imprevisível. E é nossa perspectiva que interessa, certo?

De imediato há um paralelo com toda a idéia de destino que eu havia discutido. Na discussão anterior cheguei a chamar a sorte de caos, dando à palavra uma conotação muito errada, de aleatoriedade. Eu percebo agora que minha vida não é aleatória. Sou eu que não entendo as forças que atuam sobre ela, como elas interagem, e os comportamentos que emergem destas interações (emergência é um assunto interessantíssimo na área de sistemas complexos).

Sob essa perspectiva, fica muito difícil justificar uma possível interferência divina direta, uma vez que assume-se que a evolução sobre a linha do tempo se dá sobre um número grande de variáveis (mas limitado e pré-definido).

Tentando então respondender à minha própria pergunta, do post anterior:

Até onde somos autônomos e soberanos sobre a totalidade das nossas próprias vidas?

Resposta: Não somos autônomos e soberanos. Nossas vidas são influenciadas por inúmeras variáveis em um padrão caótico imprevisível (sob a nossa perspectiva).

Nossas vidas, enquanto sistemas abertos (que recebem influência externa) estão sujeitas à desorganização, como todo sistema, mas também podem se organizar através da nossa vontade (outra influência externa). O fato de nossa vontade poder atuar sobre nossas vidas demonstra mais uma variável no componente de influência externa que determina o caos.

Ainda assim, as variáveis que influenciam nossas vidas são muitas, e temos que atuar o tempo todo para não entrarmos em desorganização completa. Comendo, tomando banho, olhando por onde andamos, tomando decisões.

Até onde somos soberanos sobre nosso destino? Na mesma medida que conseguimos organizar e entender as influências externas e prevenir a ação caótica. Isso não significa controlar todas as variáveis, mas adaptar-se a elas, surfar na onda do caos, entender que ele existe e viver de acordo com essa premissa.

Tentar controlar o caos é tão inútil quanto tentar prever se vai chover semana que vem.

Precisamos nos libertar das premissas antigas de que temos algum controle, e aproveitar melhor as oportunidades que emergem das interações caóticas.

Não, isso não é simples. Ainda tenho muito o que estudar. E vou estudar.

Vamos ver como esse novo conhecimento me serve. Vou contando pra vocês.

1 Comentários:

Blogger Nome: Karina Cecchinel disse...

Hoje em dia sou mais para "ação e reação" do que para "sorte e destido". A idéia da teoria do caos é mais paupávvel e menos ilusória, pois não se trata de algo a ACREDITAR (como a ideia de sorte, desprovida de lógica) e sim de estudar. Dá mais trabalho, mas faz mais sentido e considero muito mais justa do que a sorte rs...

bjs Gi

6:31 PM  

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