Martírio
Estou assistindo agora a segunda temporada de The Tudors, depois de ter visto a primeira. É um seriado que mostra a Inglaterra de Henrique VIII, seu rei de 1509 a 1547. É um seriado muito bem feito, e bem fiel à realidade, descontando-se os atores, bonitos demais para uma época em que todos eram horrorosos, gordos, suados, e provavelmente banguelas, já que ingleses não são conhecidos pelo cuidado odontológico até hoje. E descontando também pequenas adaptações e erros históricos, poucos, é verdade.
Que mundo éramos menos de 500 anos atrás! Absolutistas, cruéis. É muito interessante entrar em contato com uma época tão diferente da atual, que ao menos tenta presar pela ética, pela democracia, pelo respeito ao próximo. Como evoluímos em menos de 500 anos.
Mas o objetivo deste post não é falar sobre isso, que provavelmente ainda vou abordar novamente em outro post. O objetivo é discutir o martírio, no seu sentido estrito: o do mártir, que morre pela causa.
E não qualquer martírio. Quero discutir o martirio de Thomas More, que morreu por negar a igreja da Inglaterra, e por defender até a última consequência (sua própria morte) a soberania da igreja católica em todos os assuntos espirituais, negando que o rei da Inglaterra fosse o representante de Deus na terra também sobre sua igreja, algo que existe até hoje, e foi instituído por Henrique VIII. A rainha Elizabeth, atual regente da Inglaterra, é ainda hoje, graças a Henrique VIII, a suprema governante da igreja da Inglaterra. É bom lembrar que a igreja da Inglaterra foi criada para satisfazer o fogo no rabo de Henrique VIII, que queria casar e se separar de quem bem entendesse, ou seja, é mais uma instituição 'representante de Deus na terra" nascida da podridão humana.
Resumindo, Thomas More morreu em martírio pela causa da igreja católica. Foi canonizado em 1935, sendo a partir de então Santo Thomas. Morreu aos 57 anos e deixou sua família sem posses, e pior, sem um pai, em uma época em que as famílias eram profundamente patriarcais. Ele tinha chegado a ser chanceler da Inglaterra por 3 anos, por indicação de Henrique VIII, que era muito seu amigo (mui amigo pelo visto).
O seriado traz uma visão ainda mais dramática dos fatos. Ainda que isso não mude nada, traz à mente essa discussão: Será que valeu a pena a morte de Thomas More?
Hoje a igreja da Inglaterra ainda existe, e segue independente da igreja de Roma. Ninguém liga muito pra isso no resto do mundo, já que igreja católica não manda nada em lugar nenhum, nem mesmo neste Brasil, o maior país católico do mundo (também um país que adora uma mistura e um sincretismo religioso), e a Inglaterra é mais um país em um mundo globalizado, admirado por diversos motivos, mas não por sua fé. Religião é considerada opção pessoal de cada um, e o respeito impera entre a maioria civilizada, principalmente no Brasil, onde até árabes e judeus jogam bola juntos.
More morreu achando que sua fé o levaria ao paraíso. Ele pensava isso porque acreditava que Deus queria que ele defendesse sua igreja, como se Deus não soubesse se defender sozinho. Fala se uma pessoa achar que deve defender Deus porque ele não consegue se defender não é um pouco presunçosa? Ainda que More defendesse sua fé, e não Deus, ele abandonou sua família, as pessoas que amava, e que o amavam. Pior de tudo é a presunção de defender uma organização totalmente humana, fundada em princípios humanos (ainda que com focos espirituais, é humana), e instituída como universal por um livro que ela própria compilou (a Bíblia), em uma interpretação tão contestável quanto qualquer outra. Presunção ainda maior é querer seguir o caminho de Jesus, comparando os próprios passos aos dele.
Questiono a igreja católica tanto questiono qualquer outra que se julgue a única redentora na terra, a única que oferece o caminho a um suposto paraíso. Isso é papo de obstinado, fanático. Pela mesma razão homens jogam aviões contra prédios civis e mutilam mulheres em suas partes íntimas. Diferem em muito pouco. É o uso da palavra para forçar, através do medo, os de mente fraca, à fé superficial.
Coitado de More, que ignorância! Defendeu pessoas, e não a Deus, e mesmo que fosse a Deus, este não precisaria de sua defesa.
Quantos de nós ainda realizam promessas e passam por pequenos "martírios pessoais", em nome de crenças tão vãs quanto aquela. Vejo tais martírios em todas as religiões. Nos espíritas ele vem realmente como pequenos martírios pessoais através de uma palavra perigosíssima e que não é homologada em toda a codificação espírita: karma. O mais engraçado é que o espírita escolhe o próprio karma: é ele quem decide que um problema que tem é karma e vai viver sem resolvê-lo. Karma é coisa de gente acomodada.
No fim das contas, esses martírios acabam por ser pontos de orgulho último, e pouco acredito terem realmente algo de altruísmo e amor. Acredito que Deus nos quer vivos, e que multipliquemos seu amor. Nada além disso. Não é simples ao extremo? E não é suficiente?
Por fim, fico pensando em More, chegando do outro lado depois de sua extrema teimosia em não aceitar um "dono da verdadeira igreja" sobre outro tão parecido (o rei inglês e o papa romano). Certo de sua fidelidade a um Deus que na verdade era humano em todas as suas expressões, ele chega ao outro lado esperando o paraíso. Percebe-se então mais uma entre incontáveis almas em cegueira, não alcançando o paraíso ou qualquer outra coisa, e percebendo então o desperdício de uma grande oportunidade na carne. Não deve ser fácil.
Que mundo era aquele... e quantos de nós também não esperamos ainda hoje o paraíso, em troca de algum favor a Deus. Como se ele precisasse. Seja ele a missa de domingo, ou o trabalho de caridade em uma instituição qualquer. Fica a pergunta a cada um de nós: trabalhamos em caridade pela visão de Deus sobre nós como bons filhos, ou pelo próximo? Pelo orgulho de uma crença que pode estar certa ou errada (ou algo no meio), ou pelo próximo? Pela canonização interior, ou pelo próximo?

6 Comentários:
i love the tudors!! i know the director and work for him sometimes, steve shill. he directed a couple of sopranos and dexter. awesome kids. ah, the perks of living in LA...
Mari, você é muito chique...
hahaha, chique nada. sou uma camela mesmo!!! rs.
Gi,
Adoro suas análises históricas e, de fato, é muito bom percebermos o quanto evoluímos como sociedade e como espíritos, hoje tentamos não ser mais tão fanáticos e presos às visões das instituições que nos cercam, então acho que aprendemos alguma coisa e conseguimos evoluir para uma visão muito mais responsável sobre nós enquanto espíritos responsáveis por nossa trajetória em busca da ascensão(alguns de nós, é claro) e a necessidade de martírios ou de culpar o tal de karma depende da evolução de cada um. Afinal, eu acredito que também vivemos naquela época, e de que lado será que estávamos? Beijos, Lucimara
Só um detalhe... vinte e poucos anos já não cola mais... rsrsrsrs!!!! :D
Beijos,
Lucimara
Ah não, outra coisa que preciso comentar... o que são esses livros do momento... PMBOK... livro da Rita... até tu? rsrsrsrs... :D
Eu de novo!!! Beijo!
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