sábado, dezembro 09, 2006

Livro: Os manuscritos de Jesus

Terminei de ler "Os manuscritos de Jesus", de Michael Baigent há alguns meses. Esse é o pesquisador que propôs que Jesus era casado com Maria Madalena, há mais de 20 anos atrás, e cujas pesquisas foram utilizadas como base para o "Código da Vinci".

O livro é, no mínimo, intrigante.

Não dá para dizer que aceito tudo o que está escrito por lá. O que dá para dizer, e isso é inquestionável, é que o livro traz um novo ponto de vista a diversos fatos da vida de Jesus (novo para mim - que fique claro).

Da mesma forma, não aceito tudo o que está escrito sobre o JC na Bíblia. E sem dúvida é mais fácil crer neste livro do que na Bíblia, que é embasada em informações passadas de geração para geração de forma subjetiva e depois alterada, editada e cortada segundo os interesses da igreja de Roma, e que é cheia de buracos como um queijo suíço.

Alguns fatos interessantíssimos que o livro traz:

  1. É muito estranho Jesus ter sido crucificado. Na época crucificações eram reservadas para presos políticos e crimes contra a lei judaica eram punidos com apedrejamento.
  2. Quando Jesus entra em Jerusalém, já o faz como Rei judeu. No entanto, ao dizer a famosa frase "Dai a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus", Jesus vai contra seus próprios companheiros judeus que esperavam uma reviravolta histórica, libertando o povo judeu de Roma. Com a frase ele confirma o pagamento dos impostos e vai contra todas as expectativas colocadas sobre ele, já que coloca seu reino como um reino de outro mundo. Os zelotes (os revoltados judeus) queriam este mundo, não o outro.
  3. A mesma frase coloca Jesus como um aliado de Pilatos, já que ele, suposto rei de Israel, apóia o pagamento dos impostos. Se isso era um fato, seria muito complicado para Pilatos consentir com a condenação de Jesus. Mesmo assim ele consentiu. Por quê?
  4. À época era comum utilizar esponjas embebidas em ervas com propriedades anestésicas, secá-las e armazená-las. Mais tarde, ao serem necessárias, bastava-se umedece-las novamente e suas propriedades anestésicas voltavam à tona. Na cruz, Jesus recebe vinagre à sua boca, em uma esponja e logo depois morre. A questão é: morre ou desmaia?
  5. Ainda na cruz, Jesus é perfurado com uma lança para ver se está morto. Todos confirmam que está e ele é retirado da cruz. No entanto, seu sangue jorrou quando ele foi perfurado. Como qualquer médico iniciante sabe, sangue de morto não jorra, escorre, o que leva a crer que Jesus foi retirado da cruz ainda vivo.
  6. À noite 2 pessoas visitam o túmulo de Jesus com ervas que também eram utilizadas medicinalmente. Depois disso o corpo de Jesus some. Quem teria permitido sua salvação seria o próprio Pilatos.
  7. Existem relatos de um revoltoso judeu de nome Chrestus lá pelo ano 70 DC. Alguns pesquisadores dizem que esse era Jesus Cristo, após sobreviver à crucificação.
  8. Alguns anos mais tarde, quando uma continuação dos ensinamentos de Jesus estavam tomando corpo enquanto organização, existiam uns homens que se denominavam bispos. De repente, um deles, o bispo de Roma, denomina-se mais importante que os outros, e se coroa como apóstolo, o primeiro depois de João, dando continuação à Igreja que Jesus nunca fundou.
  9. A Igreja católica hoje coloca-se como única representante de Jesus e Deus na terra (uma igreja romana, representando um judeu), baseando todo o ensinamento dele na pessoa, e não na experiência. Jesus era sobretudo gnóstico, ou seja, a pessoa precisava experienciar para saber o que era o divino.
  10. Jesus nunca se colocou como parte da Santíssima Trindade, ou seja, como Deus. Pelo contrário, se colocava como filho de Deus, e dizia que todos eram Deuses também, como ele.

É feita uma contraposição entre o Jesus histórico e o Jesus da fé. As diferenças são gritantes. Percebe-se que o Jesus em que acreditamos é mitológico, tanto quanto Zeus ou Apolo.

O que eu tiro disso tudo, pessoalmente? Tiro que os ensinamentos que sobraram na Bíblia ainda assim são muito bons. Não me importa se foram editados ou não. A moral é boa, assim como é a Socrática, por exemplo. Para mim, até o momento, é a mais perfeita.

Não acredito mais com 100% de confiança em nenhum relato sobre Jesus, porque o livro lança dúvidas sobre praticamente todos os fatos, ou por falta de dados que os comprovem, ou por incoerências diretas. Hoje em dia, quando me falam de Jesus, pergunto qual a fonte e se está comprovada. Se não está é mito.

Além disso tudo, o livro propõe uma tese sobre onde Jesus passou seus anos obscuros, e sobre qual era realmente a dele. Coloca-o como um homem que propunha experienciar o contato com Deus e com os espíritos diretamente através de métodos que podiam ser ensinados a qualquer pessoa.

Vale a pena conferir o livro, mas já adianto: leia somente se você for capaz de se manter equilibrado, porque o livro derruba praticamente todos os pilares normalmente fundamentados pelas religiões cristãs; e se for capaz de lembrar que a moral cristã continua a mesma, mesmo após tudo o que é colocado pelo livro e que a pessoa Jesus é bem menos importante do que seus ensinamentos (conforme ele mesmo propunha).