segunda-feira, agosto 31, 2009

Entrego o dorso nu à perversidade da sorte

Ouvi "O Fortuna" (parte de Carmina Burana), na versão orquestrada por Carl Orff, ontem, em um lugar pouco provável. Eu gosto muito deste poema, ele é de uma verdade tão profunda que machuca, acho que devido à pequenez de quem o ouve. Gosto muito desse poema, já cheguei até a postá-lo por aqui, traduzido. Não é possível ouvir "O Fortuna" depois de entender sua letra forte, e esquecer o que ela significa. Não consigo deixar de tentar relembrar sua letra em Latim, ou sua tradução no português.

A letra trata da sorte, e como ela manipula nossas vidas. A palavra "fortuna" é tratada no latim com este significado: sorte. "Ó Fortuna/És como a vida/Mutável/Sempre aumentas/Ou Diminuis".

Eu, um cara mais racional do que eu deveria ser, não acredito em sorte. Não gosto deste nome. Acho que as coisas acontecem de uma forma mais complexa do que o nome "sorte" implica; acho que o acaso não existe, e sorte implica acaso.

Também não acredito em destino. Acho que fazemos nosso destino a cada pequeno passo, a cada respiração, a cada contato, a cada pensamento.

Ainda assim, algo há. Algo há que muda tudo, que, orquestrado tão belamente quando Orff orquestrou "O Fortuna", é capaz de modificar minha vida, meu futuro e meu presente. Uma conjunção de fatores se reunem e tudo muda. Não sei explicar o que é e como se dá, apenas sinto que há.

E sinto que as consequências dos nossos atos estejam às vezes além do nosso entendimento. E a sorte – tomando uma conotação menos aleatória, nesse sentido, talvez exista. E de certo, não a entendo.

Me incomoda saber que a sorte, o caos em sua expressão mais forte, seja capaz de influenciar minha vida de maneira irremediável. Aceitar que uma decisão tomada por mim anos atrás impacta de maneira inesperada uma situação que vivo hoje é estranho, mas aceitável. A questão é que não entendemos a forma como que isso acontece, às vezes a muitas voltas, tantas que não conseguimos enxergar. Mais difícil de entender ainda é que as decisões alheias são capazes de influenciar nossas vidas da mesma forma, ainda que, imagino eu, em menor intensidade. Quase impossível de tentar entender é que fatos pequenos, mundanos e não planejados ou decididos, sejam capaz de influenciar também.

Seria a vida uma ópera dissonante, ou apenas dissonante apenas a quem não a entende?

Até onde somos autônomos e soberanos sobre a totalidade das nossas próprias vidas? Está aí uma questão que não devo conseguir responder no meu tempo de vida.