Você não tem direito a sua opinião
Em um mundo onde os egos são maiores que a razão, todos acreditam que têm direito a uma opinião.
Qual não é a surpresa destes super-egos ao se depararem com esta informação categórica, e sem margem à contestação: Você não tem direito a sua opinião.
Eu sei, você acha que tem, e que afirmar que uma pessoa não tem direito a sua própria opinião é anti-democrático, para dizer o mínimo. Nesse momento um ser que vive em você desperta, disposto a por fim ao herege que teve coragem de dizer tal disparate.
Acalme-se, até o fim da leitura você vai concordar comigo que não tem direito a sua opinião; e isso não vai fazer de você uma pessoa anti-democrática ou que não respeita o direito dos outros. O mundo de hoje coloca tão frequentemente que temos direitos que na realidade não temos que você tem certeza que tem esse direito também. E também não tem.
E na realidade, não faz diferença que você não tem direito a sua opinião. Você vai perceber que, mesmo que tivesse esse direito, ele geralmente seria irrelevante e colocado quando menos importa.
Antes de mostrar que esse direito não existe, vamos ver porque ele seria irrelevante se existisse; vamos a um caso prático. Digamos, por exemplo, que tenhamos um liberal e um comunista discutindo, e o comunista coloca que concorda com a política atual do presidente Lula de inchar o Estado brasileiro com funcionários públicos. O liberal então expõe motivos que embasam o fato de ele discordar disso, colocando motivos claros do porque o Estado não deveria ser inchado e como isso faz mal ao país como um todo. O comunista após perceber que não encontra fatos ou opiniões a contrapor ao exposto pelo liberal, irrita-se, e diz que não importa o que o liberal esteja dizendo, que no fim das contas ele tem direito a sua opinião (a dele, não a sua).
Oras, a colocação do comunista de que tem direito a sua opinião é totalmente irrelevante à discussão. Não fará a menor diferença sobre a questão do inchaço do Estado o fato de o comunista ter ou não direito a sua opinião. Ela não acrescenta nada a discussão, e pior, não ajuda em nada o comunista a provar seu ponto de que o Estado deveria mesmo estar contratando como nunca. Ela não faz diferença.
O que realmente aconteceu é que o comunista, quando não encontrou nenhum fato ou idéia que pudesse utilizar, se colocou na defensiva, abandonou a discussão e se fechou na afirmação de que “tem direito a sua opinião”.
Não imagino ninguém ridículo o suficiente a ponto de afirmar que tem direito a uma opinião falsa. Se está afirmando que tem direito a uma opinião, é porque a considera verdadeira. Dessa forma, se o comunista tem direito a sua opinião verdadeira, e o liberal também tem direito a sua opinião verdadeira, e um dos dois, ou os dois, tem que estar errado (afinal são opiniões contraditórias), isso quer dizer que o direito de um dos dois está sendo violado, afinal, uma das opiniões é falsa. Então, de que serve um direito à opinião verdadeira, se esse direito é violado por nós mesmos, o tempo todo, justamente quando estamos errados?
Para resolver a questão temos que descobrir quem está tendo o direito violado, e para isso temos que descobrir se o Estado brasileiro deve ou não inchar de funcionários públicos. Voltamos à questão inicial, comprovando que o direito à opinião não existe, e se existisse não faria diferença.
Um direito que não é respeitado absolutamente nunca pelo próprio dono do direito não é um direito, não existe. É como se afirmássemos que gestantes têm direito à prioridade nas filas, mas nunca ninguém desse prioridade às gestantes, sem problema ou punição alguma, sem reflexo social. Podemos afirmar que o direito existe, mas na prática, não existe. Só passaria a existir quando tivesse reconhecimento social.
Existe ainda um outro problema. Todo direito traz também um dever associado. Um não existe sem o outro. Voltando à gestante: se ela tem direito à prioridade em filas, todos os não gestantes tem o dever de dar a ela essa prioridade. Esse dever não é algo opcional ao direito. Eles são a mesma coisa. Se não tivéssemos o dever de dar prioridade a gestantes, elas simplesmente não teriam esse direito.
Dessa forma, se você tem direito a sua opinião, qual o dever correspondente? Que eu preciso concordar com o que você expõe? Mas se for o caso, como fica o meu direito a opinião? Você vai ter que concordar com a minha opinião. E, se elas forem contraditórias, o que fazemos? Concordamos que o Estado, por exemplo, deve ao mesmo tempo inchar e não inchar? Se esse direito existe, como respeitá-lo?
Você deve estar pensando: "o seu dever é de deixar que eu mantenha minha opinião, afinal é minha opinião".
É eu sei. Mas não, não tenho.
Suponha que você esteja indo realizar um mergulho, daqueles com tanques de oxigênio, e eu perceba que o tanque está quase vazio, apesar de você, na sua opinião, acreditar que está cheio. Eu tenho, nesse caso, o dever de impedir você de manter sua opinião, afinal, sabendo que você não é suicida, devo lhe ajudar a permanecer vivo. E isso vale para todo o resto. Um exemplo dramático como esse ajuda a evidenciar o fato, mas na verdade, toda opinião falsa deve ser desfeita. Todos temos o dever de ajudar a esclarecer as pessoas com opiniões falsas, e algumas vezes nós somos essa pessoa.
Entenda a dica: Quando ouvir de alguém que essa pessoa tem direito a opinião entenda: desista, afinal, você pode até querer descobrir se essa opinião é verdadeira, mas o seu debatente não quer.
Outro fato importante: tome muito cuidado com a expressão “Na minha opinião”. Na maior parte dos casos, se é você quem está dizendo, só pode ser na sua opinião. Do contrário, se não é sua opinião, você diria: “Na opinião de fulano...”. Mas não disse. Só é aceitável se você está vindo de uma longa explanação baseada em fatos, e quer expor algo que acredita ser verdadeiro e ainda não está comprovado. Algo do tipo: “Os átomos são formados de neutros, prótons e elétrons, e na minha opinião, deve existir também uma outra partícula aí no meio”. Fora disso é só gasto de tempo.
Idéias fortemente baseadas no livro "Crimes against logic", de Jamie White. Se você gostou de não ter direito a sua opinião, vai gostar muito deste livro.
