segunda-feira, janeiro 22, 2007

Homem comum

"O homem comum não especula sobre os grandes problemas. Ampara-se na autoridade de outras pessoas, comporta-se 'como um sujeito decente deve comportar-se', como um cordeiro no rebanho. É precisamente esta inércia intelectual que caracteriza um homem como um homem comum. Entratanto, apesar disso, o homem comum efetivamente escolhe. Prefere adotar padrões tradicionais ou padrões adotados por outras pessoas porque está convencido de que esse procedimento é o mais adequado para atingir o seu próprio bem-estar. E está apto a mudar sua ideologia e, consequentemente, o seu modo de ação, sempre que estiver convencido que a mudança servirá melhor a seus interesses."

Ludwig von Mises, em "A Ação Humana. Um tratado de economia"

Comentário de Olavo de Carvalho, em "Dialética Erística" de Arthur Schopenhauer:

"Essa definição destaca dois traços: a passividade intelectual e a sujeição das idéias à comodidade pessoal à busca do conforto psicilógico. Quando se dá ao jovem a ilusão de que ao aderir às modas e crenças de sua geração ele está se libertando e se individualizando, em vez de adverti-lo de que o faz por inércia e por busca de segurança psicológica, o resultado que se obtém é incutir nele o mais perverso dos conformismos. O homem não se liberta do 'espírito de rebanho', de que falava Nietzsche, simplesmente por passar de um rebanho mais velho a um mais novo."

Terminei de ler "Dialética Erística" de Schopenhauer, comentada brilhantemente por Olavo de Carvalho. A definição acima de "homem comum", dada por von Mises e suas implicações, dadas por Carvalho, são curtas e ao mesmo tempo profundas.

Ao olhar em volta percebo realmente que o homem comum é esse mesmo. Ele é comum, frequente, está em todo lugar, com seus pensamentos medíocres (outra palavra para designar a mesma coisa: mediano - comum). É ele quem vota, quem mata, quem rouba, quem é eleito, quem trabalha, quem passa a perna nos outros, quem erra e é ele também que de vez em quando acerta um pouco para variar.

Opiniões espalham-se com o vento e o homem comum é o responsável por elas. Ele não pensa, é passívo intelectualmente, apenas repete, porque é muito preguiçoso para raciocinar ou pesquisar qualquer coisa que seja. Ainda assim, escolhe (baseado em vá saber o quê), o que acha ser melhor para si mesmo. O grande problema é que, por não enxergar muito além do seu próprio nariz, faz opções equivocadas, que impactam não só a si mesmo, mas muitas vezes prejudicam - até deliberadamente - o seu próximo, que ele também não vê, ao menos não como ser tão importante quanto ele mesmo.

Schopenhauer fala ainda sobre ele:

"[Os homens comuns], na verdade, odeiam aquele que pensa de modo diferente, não tanto por terem opinião diversa daquela que ele afirma, quanto pela sua audácia de querer julgar por si mesmo, coisa que eles nunca poderão fazer, sendo por dentro conscientes disto."

E conclui:

"Em suma, são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões. E que outra coisa lhes resta senão tomá-las de outros, em lugar de formá-las por conta própria? E, dado que isto é o que sucede, que pode valer a voz de centenas de milhões de pessoas?"

Não tenho o menor problema em conviver com homens comuns, e passo ótimos momentos com eles. O que me irrita é justamente essa forma descabida que têm de tomar posições e lados (ou religiões, ou times, ou partidos políticos, ou marcas de cerveja, ou tipos de música, ou...), como se fossem os únicos corretos, quando não têm a menor idéia do que realmente está acontecendo. Chega a ser patético. E seu ego é muitas vezes tão inchado que a simples menção de uma fonte aprofundada ou estudo próprio causa reações desproporcionais, causando "elogios" como "prepotente", entre outros. Ou então encontram uma maneira de derrubar o "adversário" - que na verdade quer ajudá-lo a sair do seu marasmo intelectual - e pendurar sua cabeça onde puder.

Afinal, o que mais esperar do homem comum nos dias de hoje?

 

No texto, Olavo de Carvalho afirma que o jovem buscando liberdade e individualidade adere à modas, e com isso acaba simplesmente "mudando de rebanho", ou seja, saindo do rebanho da familia e dos pais e indo para o rebanho dos amigos, enquanto mantém uma idéia pré-existente, não pensada por ele próprio.

Considero-me jovem, mas ao ler essa descrição, percebo-me não mais jovem. Prefiro então a descrição de Gikovate, que coloca que o jovem é o que consegue adequar suas estruturas às novas crenças que criou ao perceber que o mundo mudou.

Ainda assim, a maioria dos jovens (de idade) aderem muito mais à definição de Olavo de Carvalho. É triste constatar que o "espírito de rebanho" é forte a ponto de impedir uma criatura jovem se individualize, encontre a si mesma, optando pelo que não quer, apenas porque acredita que precisa disso para que o rebanho a aceite. Mal percebe ela, coitada, que é maior que o rebanho, e que existem inúmeros outros diferentes do rebanho, assim como ela.

 

Quando será que vamos abandonar o homem comum e olhar para dentro de nós mesmos?