quinta-feira, janeiro 17, 2008

Competição e Cooperação

O texto é longo, mas gostaria que você, que lê este blog, comente se for possível. Gostaria de ouvir sua opinião. Pode ser anonimamente se quiser.


 

Assisti recentemente a uma aula que tocou neste assunto. Tratava-se de uma aula de educação infantil e no ponto em que o assunto foi trazido à tona falava-se sobre a fixação da aula. Esse é o momento em que o educador vai tentar fixar o conteúdo dado de forma que o estudante lembre-se deste conteúdo no futuro.

Um participante da aula sugeriu, como exemplo, um exercício, e algum tipo de prêmio ao estudante que o completasse antes, ou melhor, ou sob algum outro critério.

A educadora que nos dava o curso comentou que a idéia era excelente, mas que o mesmo premio devia ser dado a todas as crianças, de forma a não frustrar nenhuma. Todos os comentários em sala seguiram a mesma linha, reafirmando a idéia de que todos deveriam ganhar.

Todos menos o meu, é claro. Não é de hoje que não sigo necessariamente o mesmo caminho da manada. Se acho que outro caminho parece melhor, vou por ele, mesmo que vá sozinho.

Foi o que fiz ao perguntar se, em vez de presentear a todos os que participaram, não seria melhor presentear somente o estudante que desempenhou melhor a tarefa. Argumentei que isso prepararia melhor os estudantes para a vida (tanto o que venceu, quanto os que perderam), além de estimulá-los a buscar a superação, impedindo a acomodação. Perguntei se haveria uma idade a partir da qual esse tipo de questão deveria ser abordada, e como fazê-lo, já que trabalho na educação juvenil, e não infantil. A forma de educar cada um destes dois grupos é razoavelmente diferente.

A sala veio abaixo. Senti pelos olhares recebidos, que, se pudessem, me punham para fora, bem ao estilo brasileiro de eliminar o que difere; em vez de discutir, analisar melhor, entender, buscar a verdade, enfim, praticar a dialética. Por fim, não o fizeram, afinal eu estava em uma casa religiosa, e nesse tipo de ambiente não se deve expulsar ninguém, mas perdoar.

Conseguiram me perdoar, e fomos em frente com inúmeros comentários à minha pergunta. Com duas únicas exceções todos os comentários discordavam não parcialmente, mas totalmente da idéia que propus. Ouvi explicações técnicas, como a que coloca que a criança se desenvolve melhor com esse tipo de incentivo (sem maiores explicações do por que), e a que mesmo o adulto também quer ganhar, mesmo que não vença. Ouvi também explicações mais passionais, como a que relatava que, ainda que o mundo fosse competitivo, uma casa religiosa deve ser um lugar diferente, onde devemos buscar a cooperação independentemente do que acontece no mundo.

Os dois comentários dissonantes dos demais foram muito enriquecedores. Um colocou que havia tentado experiência parecida, em que deu, ao fim do exercício, presentes iguais a todos, mas ao estudante que se saiu melhor deu um presente extra. O resultado, segundo o relato, teria sido muito bom.

O outro comentário buscou focar a cooperação em lugar da competição. O argumento era de utilizar jogos cooperativos, onde a superação se dá sobre o próprio indivíduo, e não sobre o outro, em uma atividade em que para um ganhar o outro não precisa perder. A pessoa colocou que essas atividades são mais difíceis de conduzir, mas muito gratificantes.

Nota-se que os dois comentários somados pesam imensamente mais que todos os outros, e, se não foram capazes de me atender completamente, foram um início de reflexão.

Estando em uma casa religiosa, obviamente todos buscam um mundo melhor, mais cooperação, mais amor, e mais coisas boas. No entanto, essas palavras são muito genéricas, e não concretizam a realidade que o mundo demanda. Mais cooperação não diz nada e pode significar idéias opostas em contextos diferentes. Políticos frequentemente utilizam essa falácia para ganhar o apoio do povo: alegam, por exemplo, que são a favor da educação, mas não explicam o que fariam com ela para melhorá-la, ou até mesmo se fariam. Oras, quem pode ser contra a educação? Da mesma forma, quem pode ser contra o amor e a cooperação? Em ambos os casos, afirmar que é a favor e que é melhor não adiciona nada à discussão.

Argumentar que uma pessoa fica mais feliz se recebe um presente é declarar o óbvio. Não é para isso que vamos à aula, e, enquanto ela acontece, se for para declarar o óbvio, é melhor se calar. A questão em si, a questão que fiz, não era sobre qual técnica - a cooperação ou a competição - deixa os estudantes mais felizes, mas qual os prepara melhor para a vida, para que andem com os próprios pés, e acima de tudo, como bons cidadãos, éticos, e - por se tratar de uma casa cristã - bons cristãos. O objetivo de qualquer educador é tornar-se desnecessário, onde o educando aprende a andar com os próprios pés, não precisando mais de guia. Nenhuma das respostas que declararam o óbvio atentou para a pergunta realizada. Parece que realmente temos um sério problema de compreensão de texto, ou, como dizem as diversas teorias psicológicas, o ouvido só ouve o que quer. Ou ambos.

 

Quanto ao mérito da cooperação e da competição em si (o qual não pude me alongar em respeito ao tempo da aula, que era curto), tenho diversos motivos para acreditar que se deve utilizar uma combinação de ambos. Explico-me.

Os méritos da cooperação são mais claros, não vou me alongar neles. Sabemos que ele forma equipes mais coesas, grupos mais alegres e dispostos a trabalhar em conjunto. Não acho que o problema recai no conceito de cooperação, todos já a vêem como uma idéia boa, a ser seguida. Ser a favor da "cooperação" é como ser a favor da "educação". Ninguém é contra, e quando você diz, todos ficam felizes e concordam.

 

É o conceito de competição que é visto como algo mau, que deve ser eliminado. Se fôssemos ouvir a maioria, a competição seria eliminada do mundo, teríamos, na opinião desta maioria, um mundo completamente cooperativo.

Não tenho como deixar de traçar o paralelo com outra idéia que, se não trata exatamente ou somente disso, trata disso também: o comunismo. No comunismo não há competição. O comunismo trabalha com a subtração do bem particular (tudo é do Estado) e consequentemente do empreendedorismo. Todos sabem o que aconteceu com os exemplos de comunismo que tivemos, e, apesar de todos acharem que devemos ser cooperativos, não vejo ninguém fazendo as malas e se mudando para Cuba, um país completamente cooperativo, e livre da competição. Mesmo quem conheço que já visitou e achou o máximo voltou para o Brasil, esse grande país capitalista (cada vez menos, é verdade). E porque o comunismo não deu/dá certo? Muitos podem alegar que foi a ganância humana, onde a elite e o governo (feitos por homens, falíveis), mais uma vez e assim como no capitalismo, tomou o que era da maioria. Isso é parcialmente verdade. Não foi somente a ganância do governo que levou e leva o comunismo à ruína em que está. Apesar de toda a cooperação existente na URSS à sua época, o que aconteceu na realidade foi o povo, que parou de competir, parou de se superar, e de superar o próximo. O crescimento econômico cessou, o país parou de crescer, não havia motivação. Se todos trabalham para o governo, o sustento é garantido (o prêmio), e, se não há como acumular bens, porque se esforçar? Essa linha pensamento arruinou todos os países que se propuseram ao comunismo, e esta destruindo Cuba ainda hoje.

Isso é o que causa a falta de competição. Ela tira a ambição do ser humano, transformando-o numa planta sem vontade, sem ambição, sem entusiasmo, sem ambição.

Do outro lado há o capitalismo, onde há competição. Ele trás junto outra idéia inerente, chamada meritocracia. Meritocracia significa que os prêmios só são distribuídos aos que merecem. Parece cruel com quem "não ganha", mas faz com que as pessoas se mexam, produzam mais, trabalhem a mente, encontrem dilemas morais e evoluam moral e intelectualmente, tudo isso para ganhar o prêmio no final. Não estando estagnadas, não há limites. Não é cruel com quem não se esforça, mas só com quem não faz sua parte na sociedade.

Obviamente (apesar de não gostar de citar o óbvio o faço para evitar os que vão dizer que não falei), o capitalismo não é perfeito, afinal, é praticado por pessoas igualmente falíveis. E enquanto a alma humana não estiver preparada para trabalhar voluntariamente, sem a necessidade do estímulo da competição, o capitalismo segue sendo a melhor opção, com a competição a tira-colo, mas também com a meritocracia. Outras questões, como o cuidado com os menos favorecidos, não recaem sobre o sistema econômico adotado, mas à como a sociedade em geral vai reagir sobre eles, criando leis e redes de amparo. Essas questões existirão sempre em um sistema capitalista, comunista, ou outro qualquer.

Qualquer um que não concorda com o que escrevi deveria, ao menos, ler a teoria dos jogos, e entender os grandes benefícios trazidos por ela e seus pais Nash e von Neumann. Para os mais preguiçosos, o filme "Uma mente brilhante" dá algumas pinceladas na mesma, e ilustra um claro caso de como a falta de competição (o monopólio) aumenta as chances de um produto vagabundo ou um serviço mal prestado ser aceito pela sociedade.

 

Com isso concluo: trabalhemos os jovens cooperativamente, para que saibam ajudar uns aos outros, viverem em sociedade, construirem times, equipes, amigos, e nações. E os trabalhemos também competitivamente, para que possam superar uns aos outros, avançando essa sociedade ainda tão atrasada e que tanto necessita avançar.

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